Tuesday, 5 February 2008

Carta Aberta


Caro João Capucho,

Escrevo este texto em resposta ao teu recente artigo na Surf Portugal, sobretudo para falar do que conheço, ou seja daquilo a que chamaste ciclo de ouro.


Assim penso que existem algumas incorrecções no teu texto, a primeira prende-se com a sugestão que a ANS teve alguma coisa a haver com a criação do circuito Pro Junior. Na realidade a ideia do circuito Pro Junior é do Rodrigo Herédia que teve não só a ideia como garantiu patrocinadores para o primeiro ano de circuito. À ANS foi comunicado que o iriamos fazer, a DAAZ e a Alfarroba. Não me parece correcto que venhas em nome da ANS assumir a responsabilidade por algo pelo qual nada fizeram, a não ser em 2008 quebrar o principio básico sobre o qual foi criado este Circuito Pro Junior, que foi introduzir-lhe prize money, abrindo assim caminho, à semelhança do que acontece no Open, a carreiristas. A segunda incorrecção prende-se com o facto de afirmares que a “Alfarroba pecou pela pouca socialização”. Nada mais incorrecto, talvez pela tua presença pouco assídua nos campeonatos não te tenhas dado conta de toda a socialização que ocorreu em torno do CNSO durante os últimos cinco anos, para citar alguns exemplos, tivemos um lançamento de um disco de solidariedade com presença de diversos meios de comunicação, a estrutura serviu de base para diversas telenovelas que se passavam num campeonato de surf. Levamos a cabo diversas acções com jornalistas, patrocinadores, câmaras municipais, sobretudo no que diz respeito a mostrar-lhes o que é o surf através das inúmeras aulas de surf gratuitas que demos nos últimos quatro anos. Só para finalizar estes assunto gostava ainda de salientar que a associação à SIC e ao Portugal Radical, e porque não dizê-lo à Surf Portugal, no período da Adrenalina teve uma explicação que habilmente omitiste. Existiu durante este periodo um denominador comum a estas quatro entidades que se chama Henrique Balsemão e que foi claramente um elemento facilitador do enquadramento que o surf teve nestes meios, nesse período.


Ainda em relação a esta época de ouro convém dizer uma ou duas coisas. A primeira prende-se com o papel da ANS nestes últimos cinco anos que foi inexistente no apoio à Alfarroba e no último ano de total incapacidade em fazer prevalecer o seu “Rule Book” junto dos seus associados. Depois o tal “esforço continuo” que não deu espaço ao circuito para crescer de uma forma estruturada apesar de nos últimos dois anos a Alfarroba ter solicitado um abrandamento das exigências do ponto de vista de premiação monetária e remunerações de staff técnico. Infelizmente o nível de exigência levou a uma ruptura financeira da Alfarroba que, ao contrário de outros no passado, assumiu os seus compromissos até ao fim. Assim penso que a conclusão do trabalho da direcção da ANS não deveria ser tão boa como aquela que deixas transparecer no teu artigo.


Por fim gostava apenas de deixar uma palavra em relação ao futuro. Fizeram um concurso mau em Setembro porque em vez olharem para a realidade tal como ela é, decidiram tentar avançar por caminhos que desconhecem de todo. Por muito que queiramos ou consideremos que o surf é muito valioso na crua e nua realidade dos negócios ele tem um valor acima do qual não se vai, de uma forma mais simples, é como vender um carro de um milhão de euros a quem só tem cem mil. Nunca chegará lá. Essa foi a mensagem que tentei insistentemente explicar-vos. Dito isto e olhando para o concurso que lançaram em Setembro o resultado era óbvio. Falei com alguns promotores interessados em candidatar-se ao Open e dei-lhes apenas um conselho: “Façam um orçamento”. Devem tê-lo feito pois não houve candidaturas. O segundo concurso veio mostrar o oposto.Todos os encargos baixaram brutalmente, sugerindo que existia uma época de saldos para o circuito Open, juntaram de novo o surf feminino ao Open, e abriram as portas a candidaturas individuais, com base num modelo ASP, com o detalhe que ofereceram a uma produtora os direitos de imagem dos eventos,e a um portal condições preferênciais sem sequer haver lugar a uma consulta do mercado. Não é bem este o modelo da ASP!
Ainda e ao contrário do que afirmas não foi o modelo de exclusividade que actuou contra os surfistas mas a exigência que a ANS impôs a esse modelo de exclusividade que deu cabo de um circuito que poderia em condições financeiramente interessantes e estruturantes durar vinte anos ou mais.


Gostava de deixar-te uma pergunta: em 2003 quando começamos o prize money era de 27.000 euros. Em 2008 com sorte será de 40.000 se conseguires ter oito etapas com 5.000 euros de premiação monetária que colocaste a concurso. Não teria tido mais lógica chegares a 2008 com os mesmos 40.000 euros garantidos e uma organização estruturada e com enorme visibilidade em vez de estares ainda em Fevereiro à procura de um circuito que irá inexoravelmente acabar por ser um conjunto de provas soltas, perdendo assim toda a dinâmica que foi criada na tua época de ouro?

António Pedro

No comments: